Mary Poppins e a beleza da subversão
Primeiro dia do ano e primeiro filme do ano, a produção da Disney "O Retorno de Mary Poppins" é uma grata surpresa! Consegue prestar homenagem ao filme clássico de 1964 e, ao mesmo tempo, ousa e inova sem perder a mão.Tentarei fazer uma resenha e análise aqui sem estragar a surpresa de quem não viu.
Situado no fim da década de 20 do século XX, em plena crise da depressão, o filme nos mostra como o filho de banqueiro Banks foi proletarizado, está quase falido e virou funcionário do banco que seu pai ajudou a fundar.
A película narra a batalha para manter a casa que Michael Banks não conseguiu pagar e agora o banco vem tomar. Uma crítica bacana ao capitalismo predador, presente em vários momentos do filme, inclusive quando sua irmã Jane,(agora já adulta como ele) se mostra uma organizadora e incentivadora de greves, o tempo todo trajando calças, algo não muito comum entre as mulheres daquela época, e numa postura oposta a da já sua falecida mãe no primeiro filme Mary Poppins, pintada como submissa ao marido.
Em 2h10min de filme assistimos os musicais já tradicionais de Mary Poppins entremeados por animações, a figura presente do capitalista explorador, a grevista e feminista e os relacionamentos inter-raciais presentes entre os figurantes marcam uma obra repleta de mensagens nas entrelinhas e críticas ao caminho que desenvolveu o mercado e os bancos na Inglaterra e Estados Unidos nos primeiros 30 anos do século passado.
As crianças são uma atração a parte, não encontramos aqui as birrentas, inocentes e frágeis do primeiro filme, se fazem presentes três crianças mais completas, preocupadas, responsáveis e apaixonadas pelo pai, uma maneira mais profunda de abordar a infância que emociona quem assiste.
Os musicais mostram claramente as ideias possíveis, a maneira de ver diferente algo, a narrativa que busca uma nova perspectiva aos problemas e a tentativa de apontar novas possibilidades e caminhos para superar desafios, tudo com muita alegria, beleza e cores.
É genial a avaliação feita pelo tio do atual gestor do banco ao analisar como o mesmo se aproveita dos clientes fieis para enriquecer, mostrando que o "novo capitalismo" do século XX tornou as relações desumanas em nome da maximização dos lucros.
Emily Blunt é perfeita como Mary Poppins, tem o ar inglês da personagem e se mostra saudosista em vários momentos, de maneira sutil e elegante. Cuida das crianças Banks e participa da trama de maneira irretocável.
Também chama a atenção entre o flerte da Jane Banks adulta com Jack, mas sem nenhum beijo e nenhuma mocinha fraquinha e vulnerável retratada. Merece a atenção de todos, é politicamente correto e deliciosamente subversivo, sem ser piegas ou forçar a mão em nenhum momento.
As cores impressionam, um filme para entrar na história do cinema do século XXI.
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