As charges refletem o momento político



Desde o começo de 2015 a presidenta reeleita Dilma está nas cordas na luta política, a imensa maioria das charges veiculadas esse ano na imprensa retratam isso. Sou daqueles que acredita que o papel deste tipo de representação gráfica não é o elogio, a natureza dele é o da crítica, o da tentativa de dar um tom bem humorado a algo que nos incomoda, despertar alguma indignação, brincar com fatos sérios e polêmicos. Foi baseado nessa premissa que me coloquei apoiando a liberdade de desenhar e publicar o que quer no episódio do Charlie Hebdo, me indignaram algumas tentativas de culpar os desenhistas e a publicação pelo atentado. Não gosta do publicado? Não lê, não compre.
Utilizo na  dissertação de  meu mestrado e na tese do doutorado a definição do professor Paulo Ramos para charge em seu livro A Leitura dos Quadrinhos (Editora Contexto, 2010): " A charge é um texto de humor que aborda algum fato ou tema ligado ao noticiário. De certa forma, ela recria o fato de forma ficcional, estabelecendo com a notícia uma relação intertextual (...). Os políticos brasileiros costumam ser grande fonte de inspiração (não é por acaso que a charge costuma aparecer na parte política ou de opinião de jornais)."
Dito isso é preocupante a evolução do quadro político-social. O impacto do ódio foi tão grande nas manifestações desse 15 de março de 2015 que parte expressiva dos desenhistas utilizou as redes sociais para compartilhar desenhos satirizando e alertando de maneira bem-humorada para essa irracionalidade.
Tal preocupação se levantou da raiva, preconceito, conservadorismo e virulência que isso tomou. O espaço que seria normalmente frequentado pela crítica ao governo, coisa que as charges já faziam no Império brasileiro, seguiram fazendo na República (apesar de comemorarem sua implantação nunca se furtaram a criticá-la) acabou indo para esse fato do noticiário. Nas ilustrações de Laerte Coutinho e de outros temos a oportunidade de rir de algo que não deveria ter graça, a partir de fatos ficctícios que dialogam com o contexto real do crescimento do discurso de ódio e conservadorismo.
É também da natureza das charges seu caráter contestador ao que é conservador, embora parte dos desenhistas criem somente o que a linha editorial dos jornalões permitem há possibilidade do desaguar dessas artes via redes sociais, as vezes com repercussão maior do que nos meios impressos.
É triste encontramos graça nessas situações e nos depararmos com um contexto em que o humano quase se bestializa, mas essa também é a função das charges: fazer que reflitamos e nos indignemos com o que está posto, tendo isso como algo que não é corriqueiro, que ficará registrado em nossa história para as gerações futuras esse momento de mais puro ódio em que está imersa parte das elites brasileiras.






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